Comportamentos criminosos em menores. Podemos prevenir?

 

Muitos crimes são cometidos por menores de idade. A violencia também está muito presente em cenários como a escola, tanto contra colegas, como também professores e funcionários, e mesmo contra animais. A violência infantil não é novidade, sempre existiu. Menores infratores e violentos, são também vítimas da violência. O homicídio de jovens meninos é assustador em nosso país.

Poderíamos prevenir estas violências e as mortes destas crianças? A violencia sabemos é multicausal, mas em todos os casos deveriam ser avaliados por profissionais de saúde, em associação com profissionais da justiça e da assistência social, com o intuito de analisar o porque da violência e do crime, as propostas de intervenções seriam adequadas e individualizadas.

Muitos menores infratores podem apresentar quadros psicopatológicos, que já se manifestavam antes das ocorrências criminais. A detecção precoce feita por educadores, agentes de saúde, ou mesmo pelos pais, poderia evitar os crimes e suas graves consequências. Uma capacitação e educação seriam fundamentais.

Algumas crianças infratoras podem apresentar um problema comportamental e emocional, chamado de transtorno de conduta (TC). São padrões de comportamentos violentos e disruptivos, com dificuldades em seguir normas e regras. Claro que todos os adolescentes saudáveis questionam regras e se rebelam com as mesmas. Contudo, no transtorno de conduta este é um padrão persistente, violando com frequência o direito dos outros, indo contra as normas aceitáveis, dentro da cultura na qual a criança está inserida. Estas crises de comportamento disruptivo causam incialmente grandes crises no cotidiano familiar. O diagnóstico de TC deve ser feito através de várias avaliações de preferencia em equipe multidisciplinar entrevistando não somente o menor, como os pais ou cuidadores, família e professores dos mesmos.

Os sintomas do transtorno de conduta variam dependendo da idade da criança, assim com da gravidade da mesma. Os sintomas podem ser de 4 categorias (abaixo). As crianças com transtorno de conduta em geral são irritadas, têm baixa autoestima e crises de birra. Alguns começam cedo a abusar de álcool e outras drogas. Em geral são incapazes de perceber como os seus comportamentos machucam os outros, e geralmente tem muito pouco remorso ou culpa em causar mal aos outros.

1) Comportamento agressivo
Ameaçam ou causam danos físicos, incluindo lutas, bullying, crueldade com os outros ou animais, usando armas ou forçando outros a ter atividades sexuais
2) Comportamento destrutivo
Envolve a destruição de propriedade, incêndios propositais e vandalismo
3) Comportamento dissimulado
Incluem mentiras repetidas, roubos em lojas, invasão de casas e carros com intuito de roubar
4) Violação das regras
Consiste em ir contra as regras da sociedade ou realizando comportamentos que não são adequados para a idade da criança. Incluem aqui comportamentos como fugir, cabular aulas, fazer pegadinhas ou ser sexualmente ativo extremamente cedo

O premiado filme “Precisamos falar sobre Kevin”, com a excelente Tilda Swinton, fala sobre a história real de um menino com TC, nunca diagnosticado, apesar de ter passado por vários profissionais de saúde. Não falarei sobre o filme para não estragar a novidade, mas vale a pena assistir. Existe no Netflix. https://youtu.be/ZLRgAe2jLaw

As causas do TC são desconhecidas, como a maioria dos transtornos mentais seria devido à combinação de fatores biológicos, genéticos, comportamentais, psicológicos e sociais.

Os estudos de prevalência do TC realizados no Brasil mostram números alarmantes comparados com outros países (Cruzeiro e cols., da Universidade Federal de Pelotas). Muito mais frequente nos meninos no início na adolescência, associados a abuso de álcool, drogas e bullying. Uma explicação para nossos números pelos autores foi a educação e condições socioeconômicas precárias, abuso de drogas e criminalidade dos pais, ainda a presença epidêmica de abusos e negligencias físicas, emocionais e sexuais.

O tratamento do TC depende de fatores como a idade da criança, a gravidade dos sintomas, assim com a capacidade da criança em participar e tolerar terapias específicas. Em geral é uma combinação de psicoterapias, que devem ajudar a crianças a aprender a expressar e controlar sua raiva de maneiras mais apropriadas.

Uma intervenção adequada pode evitar muitos problemas: repetência e abandono, uso de substâncias, problemas legais, lesões em si mesmo ou nos outros devido a comportamento violento, doenças sexualmente transmissíveis e até suicídio. Menores não tratados além dos riscos com a justiça, têm alto risco de ter problemas quando adultos (transtornos de personalidade antissocial, de humor ou de ansiedade, além dos transtornos de abuso de substâncias).

  • Marcelo Feijó de Mello