A neurose não existe mais

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Por Marcelo Feijó de Mello

Vladmir Safatle professor livre-docente do departamento de filosofia da USP e colunista da folha de São Paulo (23/09/2016) pergunta aos médicos porque o conceito de neurose foi abandonado pela psiquiatria e o que se propõe no lugar.

Safatle ressalta a importância histórica das proposições feitas por Freud com os termos neurose, psicose e perversão e cita os textos em novas traduções para o Português, para em seguida questionar o abandono do termo pela psiquiatria. “Freud trabalharia com uma polaridade entre duas neuroses fundamentais: a neurose obsessiva e a histeria.” Alerta que não fazer estes diagnósticos teriam repercussões na maneira como as pessoas lidam com suas experiências e sofrimentos. Ainda mais enfático: “O que significa uma sociedade que eliminou seus neuróticos”?

Existem confusões na maneira como o colega filósofo entende o diagnóstico médico. O mesmo é um conceito criado para entender quadros semelhantes que acometem certas pessoas. É uma criação, não existe concretamente, o sofrimento e os sintomas, sim existem e pertencem ao paciente. No mesmo raciocínio de Safatle, Freud então teria criado uma sociedade de neuróticos, pois estes não existiam até então.

Um conceito deve ser preciso no sentido de englobar os quadros e que leve a uma compreensão por parte do médico ou profissional que o esteja usando, do que está por trás dos sintomas, para então propor uma intervenção terapêutica. O termo neurose, usado para contrapor as psicoses, era vago, englobava quadros com evoluções muito diferentes, que tinham respostas diferentes a mesmos tratamentos. Por neurose alguns entendiam, em oposição a psicose, como uma classe de doenças com consciência da realidade e funcionais (não orgânicas), menos graves, com sintomatologia mais subjetiva que objetiva e conservação da personalidade.

Todos critérios vagos e imprecisos. Existem organicidades em vários quadros “neuróticos”, por vezes quadros “histéricos” ou obsessivos têm perda da realidade, e podem ser chamados de “psicóticos”, muitos melhoram com medicações, enquanto quadros psicóticos podem melhorar com psicoterapia.

O termo neurótico e psicótico foram abandonados em 1980 (DSM-III) e 1993 (CID-10) por ser considerado pouco útil ao avanço do conhecimento sobre os quadros apresentados pelos pacientes. Estes quadros foram reclassificados por categorias nosográficas que valorizavam a presença de sintomas, que se relacionavam entre si, que podiam ser estudados do ponto de vista clínico e epidemiológico. O próprio DSM e CID apresentaram várias modificações nas décadas seguintes em função dos estudos que sempre continuaram a avançar.

Os termos neurose, psicose e histeria incluídos no linguajar comum são carregados de preconceitos e estigmas, o que por s só já se justificaria o seu abandono.
Atualmente a psiquiatria e suas classificações estão num novo momento de mudança, que tem relação com o avanço das neurociências. O sistema de soma de sintomas deve dar espaço, para os critérios que avaliam funções mentais de uma forma mais dimensional e com gradações,. Impossível não enxergar as as relações diretas entre o cérebro e o ambiente. A proposta de procura da causa é antiquada e foi abandonada há muito pelas ciências.

Para a Psiquiatria o estudo da neurose de Freud é visto do ponto de vista da história da evolução do conhecimento psiquiátrico. Mesmo para a psicanálise o conceito já mudou e evoluiu muito desde então, sendo todos estes conceitos repaginados.

  • Estevam

    Segundo a psicanalise existem 3 estruturas clinicas, neurose, psicose e perversao.

    A maioria de nos temos estrutura neurotica, mas se uma pessoa nao tem nenhum tipo de neurose, o que significa ter uma estrutura neurotica?