O justo esquecimento da histeria

Por Marcelo Feijó de Mello

Histeria do grego, hysteros que significa útero, foi usada por Hipócrates há quase 2.500 anos atrás, para descrever quadros, convulsivos, paralisias e cegueiras em mulheres. Pensava que a origem seria devido a falta de relações sexuais, de maneira que o útero ressecado, se deslocaria pelo corpo a procura de umidade.

Na idade média os comportamentos “histéricos” passaram a ser abordados por visões religiosas, como consequentes ao pecado, relacionados ao desejo proibido. Ainda muitas pessoas, principalmente mulheres, foram levadas a morte, julgadas em processos inquisitórios e, acusadas de estarem possuídas pelo demônio, apesar das concepções contrárias da Medicina.

A partir do século XVIII com Mesmer , as concepções médicas voltam a prevalecer sobre as religiosas, pensando como um desequilíbrio de fluídos universais, para as quais propunha o tratamento através do magnetismo (hipnose). O famoso psiquiatra da sua época Charcot, no Hospital Salpetriere, pensava que estes casos tinham uma origem traumática, de origem genital acometendo ambos os gêneros, propunha a hipnose para o tratamento.

Charcot influenciou grandes médicos, como Janet e Freud, que propuseram teorias sobre as origens traumáticas ocorridas durante o desenvolvimento do indivíduo.

A histeria era um desafio aos médicos, sintomas físicos, mas sem uma correspondência anatomopatológica. Não encontravam lesões que os. justificassem. A visão científica mostrou que os sintomas são mentais. A origem sexual não se sustenta, nem mesmo como um quadro do gênero feminino. O nome histeria, de 2.500 anos, foi abandonado, com razão pela psiquiatria, por desinformar, estigmatizar e ser preconceituoso.

Isto não elimina a ocorrência dos sintomas. São decorrentes da incapacidade do indivíduo em lidar com seus desejos e afetos, não conseguindo as vezes nem mesmo reconhece-los. Não consegue assim se expressar e agir para concretizar os mesmos. Incapacidade comunicacional, faz com que use os sintomas como uma forma, mais primitiva comunicacional. Como se fizesse um apelo através de sua doença. Dai que os sintomas são carregados de intencionalidade, estando ligados as situações e as relações depositarias dos desejos e afetos, que não são elaborados.

Com certeza estas incapacidades tanto de percepção dos afetos e desejos, assim com de expressão e ação dos mesmos, tem correspondentes no funcionamento cerebral, numa concepção moderna sobre a mente. Estudos mostram alterações neste nível. Abandonar o conceito de histeria, permite o avanço no conhecimento e consequente no tratamento destes quadros ainda muito comuns.