Prevenção. A solução para a diminuição da violência no Brasil

 

A violência chega ao limite no Brasil. Manchetes vergonhosas, mas verdadeiramente pavorosas logo no 1o dia do ano. Instigante como a violência vem numa escalada crescente, enquanto diminuiu fortemente nestes mesmos 30 anos em países desenvolvidos. A atual crise brasileira não é a resposta, já que mesmo nos anos de crescimento, a violência também aumentou. O fenômeno não teria relação direta com a pobreza.

As chacinas em presídios são mais do que a ponta do iceberg, vêm junto com nossos números de violência nas formas de assaltos e latrocínios, sequestros, homicídios, violência doméstica contra crianças e mulheres. Violências que levam à morte mais de 150.000 brasileiros ao ano, mais de 400 mortes ao dia, chegando ao absurdo de 1,5 milhão de homicídios desde 1980.

As medidas de contenção da violência das ações da justiça e policiais são necessárias, mas estas agem quando a violência já ocorreu. Precisamos agir na prevenção da geração da violência. A máxima que podemos afirmar é que violência gera violência. A maior parte dos indivíduos adultos que cometem crimes tiveram história de abusos e negligências emocionais e físicas durante suas infâncias, embora esta não seja logicamente a única causa. A criminologia é uma ciência complexa.

Nascemos com um potencial agressivo, percebido nos comportamentos agressivos normais em todas as crianças. Estes comportamentos começam a cair a partir dos 2 anos de idade. As primeiras relações das crianças com seus pais e cuidadores são fundamentais para que elas aprendam a controlar suas agressividades. Aprendendo as consequências que estas levam aos outros e as suas relações. A relação do bebe com a mãe é fundamental neste processo, aqui a criança vai aprender a entender e usar suas emoções e sentimentos. Isto será seu guia para todas suas relações sociais e afetivas posteriores.

Todas estas experiências de relacionamentos têm uma ação direta no cérebro do bebe, permitindo que ele desenvolva estas capacidades. É um processo lento, mas muito preciso de conexão entre neurônios, envolvendo sistemas hormonais, metabólicos e imunológicos neste crescimento do indivíduo. Se as relações com os cuidadores forem negligentes sejam elas psicológicas (abandono, desprezo) ou físicas (agressões, carências e privações) ou traumáticas (abusos sexuais, físicos ou psicológicos) a criança carregará marcas em seus cérebros para sempre, com repercussões psicológicas e físicas. Uma delas é o risco aumentado para a atividade criminal.

A prevenção da violência começa assim nos primeiros anos de vida das pessoas. Experiências com projetos de prevenção já realizados mostram o sucesso da intervenção em reduções importantes da criminalidade em jovens. A prevenção além de eficaz é muito mais barata que a repressão.

A infância é uma janela de oportunidade onde devemos intensificar o trabalho de prevenção. Infelizmente tanto a negligencia como os abusos são absurdamente elevados em nossa sociedade. Crianças que foram criadas por pais que não cumprem seu papel, repetirão as atitudes destes, numa ação em cadeia, seus filhos também terão problemas. A violência é assim transmitida como numa epidemia, numa progressão geométrica, suas consequências duram décadas. Este é o ponto que chegamos.

Seriam alvos de programas de prevenção pais em situações de conflito, pais e mães adolescentes, e ainda pais com problemas de saúde mental como depressão e dependência a drogas. Nestas situações as crianças têm um risco aumentado de sofrerem violência ou negligência.

As ações devem ser na forma de campanhas, trabalhos em escolas, com pais, educadores, através de associações e de comunidades religiosas. Levar o conhecimento sobre estas consequências e sobre a importância dos cuidados na infância. Extensão e capacitação de profissionais de saúde, sociais e educacionais, assim como membros dos conselhos tutelares na detecção e ação nas situações de risco. Não são programas caros, pois não implica na construção de infraestruturas, mas de divulgação de conhecimento e principalmente de engajamento da sociedade. Somente desta forma poderemos quebrar o ciclo da violência.

Marcelo Feijó de Mello