Salvem as crianças de Alepo

Por Marcelo Feijó de Mello

“Novamente a imagem de uma criança vítima da guerra na Síria nos choca, trava nossas gargantas e marejam nossos olhos, ao ver o sofrimento de um pequeno tão inocente. A incompreensão do poder de destruição deste aspecto sombrio de nossa humanidade.

A impassividade e a falta de choro da criança, na realidade é sinal da dissociação peritraumática, uma forma primitiva de proteção do organismo frente a estresses quase insuportáveis. Sabemos, contudo, que apesar da aparente falta de emoção, esta em curso uma defesa grave e com alto risco, que pode, se prolongada levar a morte. Ainda, é um sinal de alta probabilidade de que este pequeno evolua com o grave e crônico quadro do transtorno de estresse pós-traumático.

Existem evidências em abundância das consequências permanentes dos traumas, negligências e abusos que ocorrem na infância. Alterações dos sistemas de defesa, imunológicos e hormonais; do funcionamento cerebral e consequentemente mentais, marcados profundamente no funcionamento genético destas crianças.

14117940_1001901583242061_7557625494620560374_nNa Síria são 8,4 milhões de crianças, que convivem com a guerra há 5 anos. Sem casas, muitas sem escolas (2 milhões), muitas órfãs, outros tantos com pais vivos, mas também destroçados. Algo precisa ser feito, os estragos permanentes já são enormes. O mundo precisa acolher, não fechar os muros e suas fronteiras. Sei que temos milhões de crianças aqui em nosso país, também em situação precária, desamparadas, ou vivendo em lares insalubres. E que, como já tenho escrito, é aqui que deveríamos focar, para um Brasil melhor. Mas não podemos fechar nossos olhos aos nossos irmãos Sírios, independentes de seus credos. O Brasil tem fortíssimas relações com a Síria e com o Líbano, o acolhimento dentro de nossas possibilidades e principalmente a sua defesa, penso ser um dever moral.

Fomos premiados há séculos com a vinda de imigrantes daquela região, erroneamente chamados aqui de turcos, por serem na época, parte do Império Turco Otomano. Premiados, pois vindo de culturas mais antigas, trouxeram um incremento através de importantes conhecimentos e valores. Todos profundamente integrados, e como tudo no Brasil, miscigenados num único povo. Sem qualquer esforço levantamos de imediato nomes de grandes empresários, banqueiros, políticos, reitores e reitoras, professores, escritores, artistas, médicos e comerciantes com ascendência sírio-libanesa. A comunidade unida mantém várias instituições beneficentes e hospitais de 1a linha. Pessoalmente muitos dos meus melhores amigos, desde a infância são “Brimos”, talvez por isto admire tanto e respeito sua cultura e os seus valores.

Além de nos horrorizarmos diante da barbárie e por isto negarmos esta realidade, devemos estender a mão a estas pessoas, defendendo-as e acolhendo-as, tornando mais forte nosso lado de união e coletividade, e enfraquecendo a raiva e destruição. Sem amor, cuidados e carinhos não conseguimos criar nossas crianças. Sem crianças não há futuro. Salvemos as crianças.”